Não. Foi um teste.
Andei lendo por esses dias uma antiga edição européia de A Relíquia, do senhor Eça de Queiroz, em português clássico, de Portugal. Divirto-me lendo os portugueses, gosto das diferenças lingüísticas sutis (ou subtis, como lá se diz) entre brasileiros e lusitanos. E os blogs; parte dos blogs que leio diariamente é portuguesa. Outro dia mesmo, numa atividade profissional, eu “traduzia” para o nosso português uma espécie de manual de Gestão do Tempo quando, de repente, cheguei num ponto em que eu não encontrava de modo nenhum uma expressão equivalente para determinado verbete – provavelmente por incompetência deste que vos escreve. Vi que uma amiga portuguesa, blogueira, estava on-line e pedi auxílio. E gostei muito do que ela me disse: que em Portugal é hábito estender demais as frases, os parágrafos. Os amigos europeus adoram florear, enfeitar a frase. Observei que isso talvez fizesse bem à literatura.
No que toca à legislação, pelo menos, em 2009 isso deve acabar. O Acordo Ortográfico da língua portuguesa, a ponto de entrar em vigor, pretende eliminar as diferenças entre Brasil e Portugal. Segundo estima-se, a unificação da ortografia da língua portuguesa irá causar modificações no modo de escrita em 1,6% do vocabulário utilizado em Portugal, enquanto que as mudanças no Brasil serão de 0,5%. Noutras palavras, os 200 mil afortunados (incluindo, err, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau) que falam português estão fodidos e terão que entrar novamente para a escola (exagero).
O ponto que abrandou a minha boca torta de média desaprovação foi o que diz respeito às publicações literárias que, após a reforma, não precisarão passar por revisões e adaptações para serem distribuídas por aqui. Mas há detalhes que desagradam, como a extinção do trema – que eu acho tão simpático. O uso do hífen também será muito limitado, o que favorecerá quem já não o utilizava mesmo (“eu profetizei a mudança da língua”). Os ditongos (lembram-se deles?) ‘ei’ e ‘oi’ de palavras paroxítonas, como assembléia, não serão mais acentuados, o que também irá fazer sorrir o colega que os já não acentuava mesmo (“eu profetizei a mudança da língua”). Ainda na casa dos desagrados: as novas regras ortográficas obrigarão os portugueses a abandonar o uso daquele ‘c’ simpático com o qual eles grafam palavras como “acção”, um dos detalhes mais simpáticos da grafia do português europeu.
O Itamaraty diz que o fato de haver dois tipos de idioma português dificulta campanhas de divulgação da língua e sua adoção em fóruns mundiais. Alguém faça o favor de dizer para essa gente do Itamaraty que, com esse argumento, eles não vão conseguir muita coisa.
Os lingüistas preguiçosos brasileiros (provavelmente de esquerda) já iniciaram as bravatas, dizendo que a reforma só irá confundir os estudantes. Ora, e desde quando algum estudante brasileiro domina o português que hoje é (ou deveria ser) falado?
Mas creio que não há com o que se preocupar. A idéia de unificar o idioma português já existe há 20 anos e, entrando ela mesmo em vigor, as mudanças não configurarão mais que a troca do gerúndio pelo particípio.
Não. Foi um teste.
Muito interessante o tema e o texto, obrigado pela informação. E não sou eu que vou provar o contrário da sua afirmação:
"desde quando algum estudante brasileiro domina o português que hoje é (ou deveria ser) falado?".
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Created on: 7/11/07 6:58 PM
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Este é começo dum romance?