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Porém, o choro, esganiçado e incontrolável, era emprestado. Era de Márcio.
"Homem que é homem bem macho não chora", guinchou algo.
Marcio observou o corpo da mulher. Uma voz sem corpo parecia soar daquele cadáver ensanguentado. Chacoalhou a cabeça, pensou que a trepada com a secretária lhe tirara o balanço mental, se sentou no sofá oposto (tudo encarando o tapete) e, só depois de respirar fundo três vezes, voltou a observar o pedaço de carne que começava a se estufar sobre o sofá.
"Homem que é homem bem macho não chora", voltou a soar a voz sem corpo.
"Quem é você? Algum demônio?", berrou ele, meio dementado. Berrou para lugar algum em particular. Mas sempre com os olhos no cadáver de Alicinha.
"Oras, tu me ouviu gemer e berrar por vinte anos e não se lembra da minha voz, seu mocorongo?", tornou a voz, descambando para o ácido.
Mocorongo era a chave. Só Alicinha berrava, alucinada, que seu macho era mocorongo, nos momentos de gozo líquido e sofreguidão nauseabunda, no vem e vai descompassado dum casal que passou da paixão para o mecanicismo dos impulsos.
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Created on: 8/24/07 12:25 AM
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